Me perguntaram se eu já tinha visto Deus. Disse que quase nunca, mas as vezes, quase sempre. Depende do trânsito. Do humor do cliente, se chovia ou se era feriado. Mas a verdade é que o via sempre na minha janela. Quando encontrava um sorriso perdido no asfalto, quando me perdia por ai tentando encontrar algo que não perdi. E eu lhe dava bom dia e ia para a rotina de todos os dias.
As vezes batia um papo breve sobre o tempo, reclamava por não ter ganho na loteria, lhe servia um pedaço de bolo e em troca lhe pedia alguns trocados para coisas que no final aumentariam meu ego ou simplesmente enferrujariam. As vezes conseguia umas moedas, outra uma tremenda de uma bronca. As vezes fingia que não o via. Estava ocupada demais para essas baboseiras milenares sem explicação cientifica criadas para facilitar a ordenação de ovelhas mal criadas. Na sequência lhe dava um sorriso e fingia que nada tinha acontecido. Lhe dava um bom dia e ia para a rotina de todos os dias.
Me perguntaram como ele era. Disse que lhe chamavam de muitos nomes e tinha muitas casas. Muitas faces. Mas minha ignorância pecava e não podia lhe discursar sobre cada. Então eu lhe descrevi como um doce de algodão doce. Que ele era aquela paz que vem com o por do sol. As vezes era como uma injeção de morfina. Outras, era como uma gargalhada daquela das boas.
Eu quase nunca falo de Deus. Não leio teologia, não discurso sobre religião. As vezes me acho como uma ovelha encardida, outra me pego pedindo perdão por ter maldito meu vizinho. Não sei qual seu nome correto, qual se parece como sua casa de verdade. Mas vou perambulando por ai e enxergando suas várias facetas naquelas preces que todos nós fazemos. Porque eu não o encontro naqueles mausoléus de prata amarela, nem naqueles de pedra, nem naqueles de tijolos e tinta branca. Eu o encontro dentro de mim.//




































































