Sobre Ele

Me perguntaram se eu já tinha visto Deus. Disse que quase nunca, mas as vezes, quase sempre. Depende do trânsito. Do humor do cliente, se chovia ou se era feriado. Mas a verdade é que o via sempre na minha janela. Quando encontrava um sorriso perdido no asfalto, quando me perdia por ai tentando encontrar algo que não perdi. E eu lhe dava bom dia e ia para a rotina de todos os dias.

As vezes batia um papo breve sobre o tempo, reclamava por não ter ganho na loteria, lhe servia um pedaço de bolo e em troca lhe pedia alguns trocados para coisas que no final aumentariam meu ego ou simplesmente enferrujariam. As vezes conseguia umas moedas, outra uma tremenda de uma bronca. As vezes fingia que não o via. Estava ocupada demais para essas baboseiras milenares sem explicação cientifica criadas para facilitar a ordenação de ovelhas mal criadas. Na sequência lhe dava um sorriso e fingia que nada tinha acontecido. Lhe dava um bom dia e ia para a rotina de todos os dias.

Me perguntaram como ele era. Disse que lhe chamavam de muitos nomes e tinha muitas casas. Muitas faces. Mas minha ignorância pecava e não podia lhe discursar sobre cada. Então eu lhe descrevi como um doce de algodão doce. Que ele era aquela paz que vem com o por do sol. As vezes era como uma injeção de morfina. Outras, era como uma gargalhada daquela das boas.

Eu quase nunca falo de Deus. Não leio teologia, não discurso sobre religião. As vezes me acho como uma ovelha encardida, outra me pego pedindo perdão por ter maldito meu vizinho. Não sei qual seu nome correto, qual se parece como sua casa de verdade. Mas vou perambulando por ai e enxergando suas várias facetas naquelas preces que todos nós fazemos. Porque eu não o encontro naqueles mausoléus de prata amarela, nem naqueles de pedra, nem naqueles de tijolos e tinta branca. Eu o encontro dentro de mim.//

Shuang Lin Monastery

Shuang Lin Monastery

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03 de Maio de 2013

Botanic Gardens

Botanic Gardens

Hoje é dia 03 de Maio de 2013. E vou lhes cantar um conto. Por ser tão belo, merece uma melodia. Pois vou cantar e verão quantas cifras de amor ele tem. E depois disso serão meus cúmplices. Nossos cúmplices. E terão contigo um pedaço de mim, da gente. Pois o que se cabe em palavras eu jogo aqui, mas há muito mais e maior que não merece ser reduzido a vogais, então eu guardo no peito e ninguém poderá negar o valor que tem.

Vou dizer que tempo não mede amor. Distância não regula sua esperança. Há somente aquilo que você sente. E se acreditar nisso, entenderá os dois primeiros versos. Verá que 525.600 minutos é maior que 365 dias pois você põe valor em cada sorriso que recebe. E 1 ano fica pequeno quando se soma 31.536.000 segundos que meu coração berrou para que ouvisse do outro continente o barulho que eu fazia quando ouvia a sua voz. E tudo ficava pequeno, o mundo ficava assexuado, o tempo sem pressa, quilômetros perdiam sentido porque nesta lógica doida não tem religião, não tem padrão. Cresci montando um príncipe encantado e eu tinha encontrado um de verdade, com todos aqueles defeitos amáveis, sem manual, sem etiqueta. Era muito mais do que eu poderia ter desejado a minha vida inteira. E não seria qualquer quilometro que me erraria de cantar esse conto que vivo.

Eu me apaixonei no dia 03 de Maio de 2012. Num boteco de esquina, num beco escuro sem tempo, sem prazo. Me apaixonei em uma quinta-feira, sem banho, sem seda, sem pintura. Fui de cara lavada e ele viu em mim o que mais ninguém fez questão de enxergar. E me aceitou assim. E eu o recebi em meu peito sem pudor, sem pânico, sem prazo. Era para ser um beijo só. Nem dois, nem três. Era para ser uma daquelas noites de quinta-feira. Uma(s) cerveja(s) geladas(s), um petisco bem gordo, muito papo sem nexo, muita fofoca besta, muitos sorrisos de graça. Era para ser somente uma quinta-feira qualquer em um boteco de esquina qualquer, e um beijo de boa noite no final. Mas ingênua que sou, a vida me pregou uma peça. E toda aquela aventura escondida que contava em meus contos tinha me pego para protagonista.

Hoje não é uma quinta-feira, mas é a sexta que somou todo esse conto doido de amor e me faz a mulher mais amada de todos os contos de amor. Hoje é dia 3 de Maio de 2013 e fazem 365 dias que aquele carioca veio com aquela barba mal feita, sorrateiro, dançando com trejeitos e seu desapego. Veio com toda sua falácia e cantoria de cantor de boteco e me enroscou sem volta. Me apaixonei, me casei no dia 03 de Março de 2013 e desde então não há uma manhã sequer que não agradeço a todo Deus que possa existir por ter me dado a coragem suficiente para aceitar esse tesouro e me dado a força suficiente para não desistir. Não disse que tudo foi fácil, que não houveram tropeços, hesitações, muros, muito choro. Mas quando o tesouro é de valor, vale qualquer esforço para tê-lo contigo. E prometo carregá-lo comigo até não existirem mais palavras que traduza isso e ele ficará eterno em mim.//


Sobre malaios

Kampong Glam é assim. São ruelas de diversas cores, cheiros e muita cultura. E no centro dela está o Sultan Mosque, a “Mesquita do Sultão”. De cafés a restaurantes, boutiques, tecidos, especiarias, muito perfume. É a região onde se concentra o maior número de malaios em Singapore e perfeita para fumar um shisha e ouvir um pouco de jazz. Se perder alí é encontrar um mundo a parte. Dentre as ruelas, procure pela Haji Lane e se divertirá entre as boutiques de roupas, gadgets e tranqueiras para preencher as prateleiras da sua sala de estar.

Os Malaios são hoje o segundo maior grupo étnico em Singapore, somando mais de 14% da população. Grande parte fala um dialeto, o Johore Riau, derivado do malaio. A nova geração já nasceu tendo o inglês como segunda língua e os malaios muçulmanos geralmente falam árabe também. Por serem muçulmanos sunitas, seguem o Islã, oram cinco vezes por dia, comem apenas alimentos halal, jejuam durante o Ramadan e mulheres estão sempre cobertas com lenços.

Em Singapore é assim. No meio dos skylines há tanta cultura que tudo se mistura. Só se perdendo que você encontra.//

Bussorah Street

Bussorah Street

Sultan Mosque

Sultan Mosque

Bussorah Street

Bussorah Street

Bussorah Street

Bussorah Street

Bussorah Street

Bussorah Street

Bussorah Street

Bussorah Street

Haji Lane

Haji Lane

Bussorah Street

Bussorah Street

Arab Street

Arab Street

Arab Street

Haji Lane

Haji Lane

Haji Lane

Haji Lane

Haji Lane

Haji Lane

Haji Lane

Haji Lane

Haji Lane

Haji Lane

Haji Lane

Haji Lane

Haji Lane

Haji Lane

Haji Lane

Haji Lane

Haji Lane

Haji Lane

Curiosidades bem curiosas

Marina Bay

Marina Bay

Aqui se come muito com a mão. Quando não, use um hashi e uma colher, talvez um garfo. Faca é talher ocidental. Ovos podres cozidos e sopa de ninho de andorinha é comida de rico. Custa caro. E não estranhe se ouvir arrotos em um restaurante. Eles não guardam nada, o que deve sair, eles soltam. Não bata com a ponta do hashi na sua comida. É um sinal de morte e você não irá querer que espíritos entrem no seu sushi. O número 4 não é bom. Prefira os números ímpares, são mais auspiciosos. Notarás que muitos prédios não tem o 40 andar, muitas comidas vem em 2 ou 6 unidades, mas não 4. O 4 é número da morte. Mantenha-se sempre branco. Para os brasileiros o bronzeado é a cor do pecado. Aqui, é sinal de trabalho braçal, classe baixa. Então abuse dos cremes whitening das farmácias. Ficar branco aqui é bom. Jamais ofereça gorjeta. Ele pode não ser rico, mas não lhe ofenda com suas moedas. Dinheiro se pega com as duas mãos. Cartão de visitas também. Sapatos, não entram dentro de casa. Não se leva sujeira para dentro de sua casa, por isso, os mantenha lá fora. Não mostre a sola do pé para ninguém. Nem o dedo do meio. São ofensas de igual valor.  Por isso, quando for ofertar em um templo, sente-se ajoelhado. Não ofenda os divinos com a sola dos seus pés. Em público, sente-se em pernas cruzadas com a sola do pé para baixo. Assim é mais educado.  Mantenha-se sempre a esquerda, diz a mão inglesa. Não abra um presente na frete de quem lhe deu, não é de bom tom. Drogas é pena de morte. Brasileiro ou Cingapuriano, não interessa. Foi pego com mais de 15g, morreu. É proibido mascar chiclete. Os distraídos que são pegos, pagam multa na hora. E sexo em troca de favores é crime. Você deverá estar rindo neste momento, mas se pegarem o jornal do mês passado verão que um Ministro foi preso por ter feito sexo com uma empresaria em troca de favores comerciais. Bem vindo a Cingapura.//

3 meses sem chiclete

Aprendi algumas coisas. Desaprendi muitas outras. Algumas simplesmente apaguei. Outras, guardei para que não se estragassem. Aprendi que amizade é aquilo que chamamos também de amor. Na alegria e na tristeza, na saúde a na doença. Tenho eles sempre em mim, no eterno. “I carry your heart with me, I carry it in my heart.” E aprendi que saudade é a mais bela manifestação do amor. Ela não dói, ela só fica ali para que você veja o que tem de valor. Pois cuide delas.

Desaprendi o que é ser sempre alerta ao perigo. Aqui sou livre (pois vide o significado em dicionário). Tenho olhos soltos para capturar todos os cantinhos de concreto. Não vão me roubar a câmera, o celular, minha atenção. Aqui sou livre da paranoia urbana. A única coisa que me assombra, é ainda minha própria sombra. Apaguei tudo aquilo que me diminua. Mantenho agora coração limpo, fora ainda algum pó que mantenho para sempre lembrar de que é preciso limpar a casa de vez em quando. Jogar fora rancores, preconceitos, aquele orgulho que pesa. O que eu guardei, não lhes convém muita atenção. Estará guardado.

Aprendi que cultura não é comparável. Mas respeito é o mesmo em todos os dialetos. E é um exercício suado respeitar aquilo que você não concorda. E torna-se cada dia mais cruel abanar a sua bandeira brasileira quando se vê o quanto lá fora o sistema funciona enquanto no pais do verde e amarelo, tudo está ainda muito cinza. Aqui não se vê um policial na rua, embora seja um dos países mais seguros do mundo. Aqui os HDBs para população pobre são como condomínios de classe média no Brasil. Aqui não se joga lixo na rua. Não verás um mendigo. Não porque existem só ricos, mas porque o governo faz o seu papel de manter o país longe das desgraças. E aqui, as melhores escolas são as públicas. Aqui, educação é educação no termo original da palavra. E é de graça. Mas como cultura não se compara e, política não faz parte do meu vocabulário ignorante, não vou dizer sobre a vergonha meio envergonhada que sinto de vez em quando.

Pois aprendi que a sua casa é o seu coração. Então o mantenha limpo e aconchegante. Pois onde ele vá, lá será sua casa. E o mantenha de portas abertas, você conhecerá pessoas maravilhosas. Outras não tanto, mas valerá depois para as histórias. Aprendi que no fundo as escolhas que faz é o que constrói a sua história. Escolha bem ou mal, mas arrisque a escolha, pois 3 meses sem chiclete pode valer mais que mil caixinhas de chiclete tutti-frutti. //

The Merlion - Marina Bay waterfront

The Merlion – Marina Bay waterfront

Sri Mariamman - Chinatown

Sri Mariamman – Chinatown

Anderson Bridge - Robertson Quay

Anderson Bridge – Robertson Quay

Marina Bay Sand

Marina Bay Sands

Far Far Away Castle - Sentosa

Far Far Away Castle – Sentosa

ArtScience Museum - Marina Bay

ArtScience Museum – Marina Bay

Gardens By The Bay - Marina Bay

Gardens By The Bay – Marina Bay

Financial District

Financial District

Under bridge - Clark Quay

Under bridge – Clark Quay

Haji Lane Road - Kampong Glam

Haji Lane Road – Kampong Glam

Helix Bridge - Marina Bay

Helix Bridge – Marina Bay

Buffalo Road - Little India

Buffalo Road – Little India

Uma pequena Índia

Uma índia em praticamente 5 quarteirões. A Tekka da comunidade Tamil. Da Bukit Timah Road a Seragoon Road o cenário é de uma caixinha de lápis coloridos. Cheiro de uma riqueza amarela, muitas jóias. Muitos cheiros. Muitos bordados. Quase nada é preto e branco, exceto por alguns olhares.

Vindos durante os 1819, soldados, condenados, trabalhadores braçais, segregados, hoje são 9,2% da população de Singapore. A maior comunidade do mundo longe da Índia. A home away from home. De uma segregação étnica, hoje ocupam cargos altos de multinacionais, deixando escancarado a complexidade das mutações dessa comunidade nos últimos 200 anos.

Em Singapore é assim. Se perdendo é que se encontra mundos a parte dos skylines. No meio de tanto cinza, há um amarelo que reluz.//

Little India

Little India

Little India

Little India

Little India

Little India

Little India 15

Little India

Little India 14

Little India

Little India

Little India

Little India

Little India

Little India

Little India

Little India

Little India

Little India

Little India

Little India

Little India

Little India

Little India

Little India

Little India

Little India

Little India

Little India

Little India

Little India

Little India

Little India

Little India

Little India

Little India

Secreto, segredo

Self Portrait

Self Portrait

Eu escrevo não por competência. É por necessidade. Não tenho muita gramática. Meu vocabulário é escasso. Mas minha inquietude foge a qualquer dicionário e não tem licença poética. Ela quer ir pra fora. Quer se exibir. Eu não escrevo o que corre dentro de mim. O que há em mim eu guardo, não lhes convém certas confissões. Eu escrevo o que não cabe em mim e se faz urgente colocar em algum lugar. Então eu jogo aqui.

Mas hoje vou lhes contar um segredo. Vou lhes contar o que guardo aqui dentro bem lá no fundo. Sei que certos sentimentalismos não lhes convém, mas não espero aplausos, nem comoção penosa. Espero que não interprete. Não julgue. Apenas veja. E se não gostar, perdoe-me o mal gosto. Se gostar, fique e guarde pra si o tesouro que compartilho contigo. Pois veja bem, não é todas as manhãs que o sol abre assim, não é sempre que deixo-lhes entrarem assim. Então venha e aproveite o chá enquanto lhes conto um conto. A casa tem cheiro de pão de queijo. Tem bolo quentinho com café fresco.

Prometo-lhes não lhe roubar muito tempo, sei que hoje isso é quase um souvenir em extinção. Custa alto. Vou ser breve e simples. Sem anedotas, sem muita prolixia, sem sombras. Prometo-lhes usar meu vocabulário curto de iniciante, sem voltas. Sei que meu tesouro pode não ser de tanta valia, mas meu valor sou quem dito. Então digo que irão gostar. Verão como reluz a luz. Como dança bonito. Coisa bonita de se ver.

É como uma pedra de valor. Mas sem valor, porque de tão preciosa perdeu-se a soma do valor. É como cheirinho de bolo de chocolate com chocolate quentinho. Tem gosto sapeca como as sextas-feiras tem. É fresco como água e hortelã. Tem cor de purpurina. E é tão meu, que por ser mais seguro, acho que vou mantê-lo aqui dentro. //